Há gente assim, tão pura.
Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa.
Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa
da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos
imensos e incendeia as casas,
grita abertamente as giestas,
Aniquila o mundo com
seu silêncio apaixonado.
Amam-me, multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno.
(HERBERTO HELDER)
terça-feira, 14 de outubro de 2008
HERBERTO HELDER
Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo.
E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.
Correndo, lembrando, batendo.
( HERBERTO HELDER )
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo.
E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.
Correndo, lembrando, batendo.
( HERBERTO HELDER )
HERBERTO HELDER
Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob
os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta
de um certo pensamento
de alegria e de impudor
HERBERTO HELDER
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob
os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta
de um certo pensamento
de alegria e de impudor
HERBERTO HELDER
HERBERTO HELDER
Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
HERBERTO HELDER
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
HERBERTO HELDER
domingo, 12 de outubro de 2008
HERBERTO HELDER
Há cidades cor de pérola onde as mulheres existem velozmente.
Onde às vezes param, e são morosas por dentro.
Há cidades absolutas, trabalhadas interiormente
pelo pensamento das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águascelestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos estremecem.
Mulheres que imaginamnum supremo silêncio,
elevando-se sobre as pancadas da minha arte interior.
Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas nem dedos.
Onde consumouma amizade bárbara.
Um amor levitante. Zona que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos pensadores.
Para que algumas mulheres sejam cândidas.
Para que alguém bata em mim no alto da noite
e me diga o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiramo fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada sobre escada.
MuIheres que eu amo com um des-espero fulminante,
a quem beijo os péssupostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror, com alegria.
Em que toco levemente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces e formidáveis no espaço,
dentrode ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixoe criam uma insondável ilusão.
Dentro de minha idade, desde a treva, de crime em crime -
espero a felicidade de loucas delicadas mulheres.
Uma cidade voltada para dentrodo génio,
aberta como uma boca em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.
Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sanguede um amargo delírio
.Olho de cima a beleza genialde sua cabeça ardente:
- E as altas cidades desenvolvem-se no meu pensamento quente.
Herberto Helder
Onde às vezes param, e são morosas por dentro.
Há cidades absolutas, trabalhadas interiormente
pelo pensamento das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águascelestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos estremecem.
Mulheres que imaginamnum supremo silêncio,
elevando-se sobre as pancadas da minha arte interior.
Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas nem dedos.
Onde consumouma amizade bárbara.
Um amor levitante. Zona que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos pensadores.
Para que algumas mulheres sejam cândidas.
Para que alguém bata em mim no alto da noite
e me diga o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiramo fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada sobre escada.
MuIheres que eu amo com um des-espero fulminante,
a quem beijo os péssupostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror, com alegria.
Em que toco levemente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces e formidáveis no espaço,
dentrode ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixoe criam uma insondável ilusão.
Dentro de minha idade, desde a treva, de crime em crime -
espero a felicidade de loucas delicadas mulheres.
Uma cidade voltada para dentrodo génio,
aberta como uma boca em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.
Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sanguede um amargo delírio
.Olho de cima a beleza genialde sua cabeça ardente:
- E as altas cidades desenvolvem-se no meu pensamento quente.
Herberto Helder
HERBERTO HELDER
Um poema cresce inseguramente na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência ou os bagos de uva de onde
nascem as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único, invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos, a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
HERBERTO HELDER
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência ou os bagos de uva de onde
nascem as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único, invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos, a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
HERBERTO HELDER
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